Revisão no Reino Unido questiona exigir diagnóstico fechado para dar apoio
Relatório do governo britânico sobre TDAH e autismo recomenda apoio por necessidade, não só depois do diagnóstico completo.

Uma revisão encomendada pelo governo britânico
O Departamento de Saúde do Reino Unido publicou, em 9 de outubro de 2026, o relatório final de uma revisão independente sobre saúde mental, TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade) e autismo. O trabalho foi coordenado pelo psicólogo Peter Fonagy, da University College London, com a colaboração de mais de 120 pesquisadores e profissionais. O documento tem quase 600 páginas e foi encomendado para entender por que o número de diagnósticos de TDAH e autismo cresceu tanto no país nos últimos anos, e para propor mudanças no sistema de saúde.
A revisão vale para os serviços do Reino Unido, não do Brasil. Mas os números que ela reúne ajudam a entender um problema que também aparece por aqui: filas longas para avaliação e diagnóstico, e serviços sem estrutura para apoiar quem está esperando.
Filas que crescem e esperas que fazem mal
Segundo o relatório, os encaminhamentos mensais para avaliação de TDAH no Reino Unido saltaram de cerca de 5 mil, em 2019, para cerca de 17 mil, em 2024. No fim de 2025, havia mais de 560 mil encaminhamentos em aberto, mais de 17 vezes o número de 2019. Para autismo, havia mais de 254 mil encaminhamentos abertos em dezembro de 2025, e mais de 90% das pessoas esperavam mais de 13 semanas só pela avaliação.
O relatório mostra que a própria espera causa dano. A proporção de pessoas cujas dificuldades pioram enquanto aguardam sobe de cerca de 1 em cada 4, entre quem espera menos de duas semanas, para mais de 7 em cada 10, entre quem espera mais de seis meses.
Apoio antes do diagnóstico fechado
A principal recomendação da revisão é deixar de condicionar todo apoio à conclusão do diagnóstico e passar a um sistema guiado pela necessidade identificada em cada pessoa. Na prática, isso significa oferecer apoio baseado em evidências enquanto a avaliação formal ainda não terminou, e garantir que ninguém saia de uma fila de espera sem ser encaminhado a alguma ajuda. Como resume o próprio relatório, "o diagnóstico importa, mas não é isento de riscos".
Outras recomendações incluem avaliações multidisciplinares para reduzir diagnósticos equivocados, formação básica em neurodesenvolvimento para profissionais de saúde em geral, pesquisas periódicas sobre a real proporção de pessoas com TDAH ou autismo na população, e uma campanha nacional de informação. O documento deixa claro que essas são recomendações ao governo britânico: por enquanto, nada muda automaticamente na lei ou nos serviços.
O que isso significa para as famílias
No Brasil, filas de espera e diagnóstico tardio também são queixas comuns de famílias de pessoas autistas e de pessoas com TDAH. A ideia central do relatório britânico, de que o apoio não devia depender só de um laudo fechado, é um bom ponto de partida para uma pergunta a levar ao pediatra, ao neurologista ou à escola: enquanto a avaliação completa não termina, que apoio já pode começar agora?
Vale lembrar que, no Brasil, a Lei Berenice Piana (Lei 12.764/2012) já garante à pessoa autista os mesmos direitos das pessoas com deficiência, incluindo atendimento prioritário no SUS. Famílias que enfrentam demora podem buscar informação sobre esses direitos nos canais oficiais do Ministério da Saúde e dos órgãos estaduais e municipais de defesa da pessoa com deficiência.




