Cérebro autista processa rostos de forma diferente, mostra estudo
Pesquisa da Universidade Yale, com quase 400 crianças, usou EEG e mostrou sinais cerebrais menos definidos ao ver rostos em crianças autistas.

O que a pesquisa encontrou
Cientistas da Universidade Yale, nos Estados Unidos, descobriram que o cérebro de crianças autistas processa rostos de um jeito diferente do que se imaginava até agora. O estudo foi publicado na revista científica Nature Mental Health e usou um exame chamado eletroencefalograma, ou EEG, que mede a atividade elétrica do cérebro por meio de sensores colocados no couro cabeludo.
Segundo os pesquisadores, os sinais cerebrais ligados a ver um rosto são menos distintos nas crianças autistas do que nas crianças sem autismo. Nas crianças sem autismo, a capacidade de o cérebro "identificar" o que estava sendo observado melhorou conforme elas cresciam. Nas crianças autistas, essa mesma melhora relacionada à idade não apareceu.
Como foi feito o estudo
Para chegar a esse resultado, a equipe analisou dados de quase 400 crianças autistas, reunidos pelo Autism Biomarkers Consortium for Clinical Trials, um consórcio de pesquisa dos Estados Unidos. As crianças olhavam para imagens de rostos e de objetos do dia a dia enquanto o EEG registrava sua atividade cerebral. Diferente de estudos anteriores, que olhavam só para algumas regiões do couro cabeludo, essa pesquisa usou o registro de todos os 128 sensores do equipamento. Depois, um sistema de aprendizado de máquina, um tipo de inteligência artificial, tentou identificar, apenas pelos sinais cerebrais, o que cada criança estava olhando naquele momento.
O pesquisador principal do estudo, Jason Griffin, hoje professor na Universidade de Houston, afirmou: "a atividade cerebral que medimos no couro cabeludo não é tão distinta em crianças autistas". Segundo ele, o processamento de rostos nessas crianças não segue a mesma trajetória de desenvolvimento observada nas demais.
O que isso muda — e o que ainda não muda
Hoje, o diagnóstico de autismo é feito observando o comportamento da criança, porque não existe nenhum exame biológico confiável para confirmá-lo. James McPartland, professor de Yale e um dos autores do estudo, diz que a descoberta é um primeiro passo para apresentar o que os cientistas chamam de biomarcador: um sinal biológico que, no futuro, poderia ajudar a entender melhor o autismo. Mas ele próprio faz a ressalva de que são necessárias muitas outras pesquisas antes que isso chegue a algum uso clínico, ou seja, antes que possa ser usado de fato em consultas e clínicas.
Os pesquisadores também destacam que a diferença encontrada é um padrão observado no grupo estudado, e não significa que toda pessoa autista tenha dificuldade para reconhecer rostos ou expressões. Muitas pessoas autistas têm pouca ou nenhuma dificuldade relacionada a esse processamento.
O que isso significa para as famílias
Essa pesquisa ainda não serve para diagnosticar ninguém. O exame feito pelos cientistas usa equipamento de laboratório e análise especializada, não está disponível em consultas de rotina e não substitui a avaliação clínica feita pelos profissionais que acompanham o desenvolvimento da criança.
O estudo ajuda a entender, de um jeito mais biológico, por que algumas crianças e pessoas autistas têm mais dificuldade para perceber expressões no rosto de outras pessoas ou para manter contato visual. Isso costuma ser visto apenas como uma característica de comportamento, mas pode ter relação com a forma como o cérebro processa essa informação — não é escolha, preguiça ou falta de educação.
Se a família perceber que a criança tem dificuldade para reconhecer expressões faciais ou para olhar nos olhos, vale conversar sobre essa observação com o profissional que acompanha o desenvolvimento dela, como pediatra, neuropediatra ou equipe de avaliação, para que decida, caso a caso, se algum tipo de apoio é indicado.




