Novo critério muda estimativa de autismo profundo nos EUA
Novo cálculo do CDC, com definição mais precisa, reduz de 27% para 17% a fatia de crianças autistas com autismo profundo.

O que mudou na contagem
Um estudo divulgado nesta quinta-feira (22) pelo site de jornalismo científico The Transmitter mostra uma queda importante no número de crianças autistas nos Estados Unidos classificadas com autismo profundo. Essa classificação é usada por pesquisadores para descrever pessoas autistas que, ao longo da vida, costumam precisar de apoio intensivo e cuidado constante de um adulto.
A pesquisa foi publicada no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. Os autores aplicaram uma definição mais recente a dados de 2022 coletados pela rede de vigilância de autismo do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), em 13 localidades do país, com crianças de 8 anos.
O resultado: cerca de 17% das crianças autistas de 8 anos atenderam aos critérios de autismo profundo. A estimativa anterior do próprio CDC, divulgada em 2023 com dados de 2000 a 2016, apontava 27%.
Por que o número mudou
A principal razão é a definição usada. Até agora, a mais citada vinha de uma comissão da revista científica The Lancet, de 2021, pensada para adultos: considera autismo profundo quando a pessoa precisa de cuidado 24 horas e, na maioria dos casos, tem QI abaixo de 50 ou fala muito limitada. O novo estudo usou um critério fechado em 2026 por um grupo de especialistas, que também olha o funcionamento adaptativo da criança — ou seja, sua capacidade de fazer tarefas do dia a dia sozinha, não só o resultado de um teste de QI.
Quando os pesquisadores testaram outras definições nos mesmos dados, os números mudaram bastante: com a definição da Lancet, a prevalência de autismo profundo ficou 34% maior; usando só um corte de QI abaixo de 70, ficou 71% maior; e olhando apenas fala e funcionamento adaptativo, sem considerar o QI, ficou 33% menor. Para o pesquisador Joshua Anbar, um dos autores do estudo, "chegar a uma definição combinada é algo realmente importante".
Outro fator é que o total de crianças diagnosticadas com autismo cresceu nos últimos anos, o que reduz a fatia proporcional das que têm o quadro mais profundo. Os números também variaram muito de uma cidade para outra dentro dos Estados Unidos, de 10% em Utah a 35% em Laredo, no Texas — diferença que reflete, principalmente, como cada região faz a avaliação e o diagnóstico, não necessariamente uma diferença real na gravidade dos casos.
Uma lacuna de dados que preocupa
O estudo também mostrou um problema sério: muita informação está faltando. Das 7.084 crianças autistas analisadas, só 61% tinham dado de QI registrado, 74% tinham informação sobre se falavam ou não, e 56% tinham escore de funcionamento adaptativo. Apenas 54% das crianças tinham todos os dados necessários para a classificação completa — o restante foi estimado por um método estatístico de previsão.
Para a pesquisadora Catherine Lord, "a lacuna de dados é um grande problema", porque crianças com QI mais baixo costumam ser justamente as mais difíceis de avaliar formalmente, o que pode distorcer os números em qualquer direção. Já o médico Matthew Siegel lembra que, seja qual for o percentual exato, o grupo de crianças com necessidade de apoio intensivo continua grande: "esse é um grande grupo de crianças e famílias que precisam de suporte e serviços intensivos".
O que isso significa para as famílias
Esse estudo não cria nem tira nenhum direito, benefício ou atendimento: é um trabalho de estatística, que tenta medir melhor quantas crianças autistas precisam de apoio mais intenso. A classificação "autismo profundo" é usada por pesquisadores em estudos de população; não é um código de diagnóstico que a família recebe no consultório.
O que de fato define o apoio que uma criança autista recebe — incluindo terapias, professor de apoio na escola ou benefícios como o BPC — é a avaliação feita pela própria equipe que acompanha a criança, olhando o funcionamento adaptativo (as habilidades do dia a dia), a comunicação e, quando cabível, o QI. Dúvidas sobre o nível de apoio que seu filho ou filha precisa são uma conversa para levar ao médico, psicólogo ou terapeuta que faz o acompanhamento, não algo que se decide por uma estatística nacional.




