Corte de verbas nos EUA ameaça pesquisa com macacos sobre o autismo
Reportagem mostra que cortes de verba nos EUA colocam em risco estudos com macacos sobre genes ligados ao autismo.

Por que usar macacos na pesquisa sobre autismo
Uma reportagem publicada nesta segunda-feira (2) pelo site científico The Transmitter, especializado em pesquisas sobre autismo, mostra por que alguns cientistas usam macacos, e não só camundongos, para estudar o autismo. Segundo a matéria, macacos como o macaco-rhesus e o sagui têm um cérebro e um comportamento social mais parecidos com os dos seres humanos do que os roedores, o que ajudaria a entender melhor algumas características do autismo.
Para isso, pesquisadores criam macacos geneticamente modificados que carregam variantes de genes já ligados ao autismo em humanos, como o CHD8 e o SHANK3. Um exemplo citado na reportagem é o primeiro macaco-rhesus com uma variante do gene CHD8, nascido em setembro de 2025 em um centro de pesquisa nos Estados Unidos, fruto do trabalho do pesquisador David Amaral, da Universidade da Califórnia em Davis. O gene CHD8 também está relacionado a deficiência intelectual e a um crescimento maior da cabeça (macrocefalia).
Cortes de verba ameaçam colônias e equipes
A reportagem diz que o financiamento dos Estados Unidos para esse tipo de pesquisa está encolhendo, e que centros de primatas do país, como o Centro Nacional de Pesquisa com Primatas de Oregon, estão reduzindo suas equipes e se afastando de estudos com animais. Segundo o texto, um pesquisador americano, que não quis se identificar, já pausou seu trabalho com macacos ligados ao autismo por causa da falta de verba.
Para os cientistas ouvidos pela reportagem, o problema é que colônias de macacos geneticamente modificados levam anos para serem formadas, e perder essas equipes e animais tornaria muito difícil recomeçar o trabalho. "É difícil ser otimista", disse Amaral à reportagem. Já Michael Platt, da Universidade da Pensilvânia, afirmou que reconstruir esse tipo de pesquisa depois de perder equipe ou colônias seria "extremamente difícil".
China e Japão continuam investindo
Enquanto isso, a reportagem mostra que outros países seguem financiando esse tipo de pesquisa. A China lançou em 2022 um programa de neurociência de cerca de 5 bilhões de iuanes (por volta de 750 milhões de dólares), que tem estudos com primatas como uma de suas linhas prioritárias. No Japão, o pesquisador Noritaka Ichinohe mantém um modelo de autismo em saguis. Para o pesquisador Guoping Feng, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), se os Estados Unidos recuarem nessa área, outros países "vão ficar bem à frente".
O que isso significa para as famílias
Essa notícia não muda nada no diagnóstico ou no tratamento do autismo hoje. É uma pesquisa básica, ainda em fase inicial, sobre os genes que podem estar envolvidos no autismo, feita, por enquanto, em poucos animais.
Um exemplo citado pela reportagem é uma terapia genética voltada para o gene SHANK3, testada primeiro em camundongos e macacos. Segundo a matéria, essa terapia já foi licenciada a uma empresa e começou a ser testada em um estudo clínico inicial com seres humanos. Mas isso ainda está longe de virar um tratamento disponível: a reportagem não traz nenhum resultado de eficácia em pessoas, e um dos próprios pesquisadores afirma que estudos com animais não são obrigatórios para que um tratamento siga para testes em humanos, apenas ajudam a dar mais confiança sobre segurança.
Para quem tem um filho ou um familiar autista, o que continua valendo é o que já é comprovado: diagnóstico com uma equipe especializada, estimulação precoce e apoio multiprofissional, como fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia. Também continuam valendo os direitos já garantidos por lei no Brasil, como o acesso a terapias pelo SUS ou pelo plano de saúde. Vale acompanhar canais oficiais, como o Ministério da Saúde, para notícias futuras sobre pesquisas que cheguem, de fato, a tratamentos testados em pessoas.




