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Nature questiona dados de estudo famoso sobre autismo em ratos

Um estudo de 2017 sobre bactérias da mãe e autismo em camundongos recebeu alerta por dados repetidos. Autor diz que a conclusão não muda.

fonte: The Transmitter2 min de leiturapesquisaautismociência
Microscópio sobre uma mesa de madeira em uma sala de aula de ciências.
Microscópio sobre uma mesa de madeira em uma sala de aula de ciências. Foto: Siyavula Education (CC BY 2.0), via Openverse. A imagem é ilustrativa e não retrata as pessoas ou o local da notícia.

O estudo que chamou atenção em 2017

Em 2017, a revista científica Nature publicou um estudo com camundongos (ratos usados em pesquisas de laboratório) prenhas. A pesquisa mostrou que certas bactérias no intestino da mãe aumentavam a chance de os filhotes desenvolverem um comportamento parecido com traços do autismo, quando a mãe também tinha uma resposta do sistema de defesa do corpo ativada durante a gestação. O estudo ligou esse efeito a uma proteína chamada interleucina-17a, que atua no sistema imunológico. Desde a publicação, o artigo foi citado mais de 680 vezes por outros cientistas, um sinal de que influenciou bastante as pesquisas sobre autismo e sobre a relação entre o intestino e o cérebro.

Por que a Nature emitiu um alerta

Em outubro de 2026, a Nature publicou uma nota chamada "expressão de preocupação" sobre esse estudo. A revista explica que duas medidas usadas para avaliar a sociabilidade dos filhotes de camundongo aparecem com números idênticos repetidos em dez figuras diferentes do artigo, o que não deveria acontecer em experimentos distintos. Segundo a Nature, os arquivos originais com os dados não foram encontrados, porque se perderam quando os laboratórios envolvidos mudaram de endereço, e por isso não é possível conferir se os números estão certos.

A revista também corrigiu uma imagem duplicada no artigo. O problema foi apontado em setembro de 2025 pelo biólogo molecular Sholto David, que investiga falhas em publicações científicas, em um site onde pesquisadores discutem problemas em artigos. Jun Huh, da Universidade Harvard e um dos autores do estudo, revisou os dados depois disso, encontrou outros números repetidos que não conseguiu explicar e avisou a Nature.

O que os cientistas dizem agora

Uma "expressão de preocupação" é diferente de uma retratação: a revista não está dizendo que o estudo é falso, mas sim que há dúvidas sérias sobre os dados que ainda não foram esclarecidas. Jun Huh afirmou que, para ele, "as conclusões continuam as mesmas" e que pesquisas feitas depois confirmaram a ideia central do estudo. Já o neurocientista Kevin Mitchell, do Trinity College Dublin, na Irlanda, avalia que as pesquisas que ligam bactérias intestinais ao autismo, de modo geral, ainda têm problemas de método que vão além desse caso específico.

Dois dos autores do artigo original não responderam aos pedidos da Nature nem de jornalistas para comentar o caso. Os demais pesquisadores envolvidos concordaram com a publicação do alerta.

O que isso significa para as famílias

Essa notícia não muda nada no diagnóstico ou no tratamento do autismo hoje. A relação entre bactérias intestinais e autismo ainda é um tema em debate entre cientistas, e não existe nenhum exame de fezes ou "tratamento de microbioma" comprovado para diagnosticar ou tratar o autismo.

O caso mostra como a ciência se corrige: outros pesquisadores revisam dados já publicados, erros aparecem e as revistas científicas publicam avisos quando encontram problemas. Isso é normal e faz parte do processo. Não é motivo para desconfiar da ciência como um todo, mas é um bom lembrete para desconfiar de qualquer "causa definitiva" ou "cura" do autismo anunciada com pressa, antes que outros cientistas consigam repetir e confirmar o resultado.

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