Maior estudo já feito não liga gripe na gravidez a autismo
Pesquisa com 2,7 milhões de mães e filhos na Coreia do Sul e no Japão não achou elo sólido entre gripe na gestação e autismo nos filhos.

Um estudo gigante sobre gripe na gravidez
Um estudo publicado em 8 de outubro de 2026 na revista científica JAMA Network Open analisou dados de saúde de mais de 2,7 milhões de pares de mãe e filho na Coreia do Sul e no Japão, entre crianças nascidas de 2010 a 2017 e acompanhadas até 2023. O objetivo era descobrir se ter gripe durante a gravidez está de fato ligado a mais diagnósticos de condições do neurodesenvolvimento nos filhos, entre elas o autismo (TEA).
Na comparação direta entre todas as mães do estudo, os pesquisadores, liderados por Jaehyun Kong e colegas da Universidade Kyung Hee, em Seul, encontraram um risco um pouco maior de diagnóstico de TDAH nos filhos de mães que tiveram gripe na gravidez. Mas, para o autismo especificamente, não houve associação significativa nem na Coreia do Sul nem no Japão: os números ficaram dentro da faixa que os cientistas consideram compatível com o acaso.
A pesquisa também trouxe um resultado sobre a covid-19. Segundo reportagem da revista científica Spectrum, especializada em autismo, um outro estudo recente sobre infecção por covid-19 na gravidez não encontrou aumento no risco de condições do neurodesenvolvimento nos filhos.
Por que comparar irmãos muda a conclusão
A parte mais importante do estudo foi comparar irmãos dentro da mesma família: um cujo a mãe teve gripe durante aquela gravidez e outro que não teve, na gravidez seguinte ou anterior. Essa técnica ajuda a descontar fatores que a família toda compartilha, como genética, hábitos e acesso a atendimento de saúde.
Quando os pesquisadores fizeram essa comparação entre 33 mil pares de irmãos na Coreia e quase 8 mil no Japão, a leve associação com TDAH que tinha aparecido antes deixou de ser estatisticamente significativa. O mesmo valeu para o autismo, que já não tinha mostrado associação clara na primeira análise.
Os próprios autores pedem cautela: as amostras de irmãos são menores, o que deixa margem para que efeitos pequenos não tenham sido detectados. Eles também avisam que a perda de significância estatística na comparação de irmãos não deve ser lida como prova definitiva de que fatores de família explicam tudo. Outra limitação citada no artigo é que a gripe foi identificada pelo diagnóstico médico registrado, não por teste de laboratório, então casos leves ou sem sintomas podem ter ficado de fora da contagem.
O que isso significa para as famílias
Se você teve gripe ou covid-19 durante a gravidez, este estudo é uma notícia tranquilizadora: a pesquisa mais ampla já feita sobre o tema não encontrou um elo sólido entre a infecção na gestação e o autismo no filho. Não há, a partir desses dados, motivo para culpa ou para buscar algum tratamento especial por causa disso.
O autismo tem origem multifatorial, e a ciência ainda está entendendo essa combinação de fatores genéticos e ambientais. Um estudo isolado, mesmo grande como este, não encerra o assunto: os próprios pesquisadores dizem que mais pesquisas são necessárias.
Vale lembrar que os sinais de autismo costumam aparecer na primeira infância, como diferenças na comunicação, no contato visual ou em comportamentos repetitivos. Se você notar esses sinais no seu filho, o caminho é buscar avaliação com um pediatra ou outro profissional de saúde, e não atribuir a causa a episódios como uma gripe na gravidez.




