Estudo não liga antidepressivo na gravidez a mais autismo ou TDAH
Pesquisa com 167 mil crianças no Reino Unido não achou diferença clara de autismo e TDAH entre mães tratadas ou não com antidepressivo.

Como foi feita a pesquisa
Pesquisadores da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, publicaram um estudo que acompanhou 167.447 crianças nascidas no País de Gales entre 2009 e 2016. A pesquisa saiu na revista científica PLOS Medicine no dia 11 de outubro de 2026.
A equipe cruzou dados de postos de saúde, maternidades e escolas, e formou quatro grupos de mães: as que não tiveram depressão registrada nem tomaram antidepressivo; as que tiveram diagnóstico de depressão pelo médico de família mas não tomaram o remédio; as que tiveram diagnóstico e tomaram antidepressivo; e as que tomaram antidepressivo sem ter um diagnóstico de depressão registrado no sistema de saúde. As crianças foram acompanhadas até 2022, quando tinham, em média, quase 6 anos.
O que os pesquisadores encontraram
Quando os cientistas compararam filhos de mães com depressão tratada com antidepressivo e filhos de mães com depressão não tratada, a diferença nas chances de autismo e de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) não foi, segundo o estudo, estatisticamente significativa. Isso quer dizer que a diferença encontrada pode ter acontecido por acaso, e não dá para afirmar que o remédio tenha causado mais casos desses dois diagnósticos.
Houve uma diferença pequena entre os grupos em dois outros resultados: dificuldade de aprendizagem e dificuldades emocionais, sociais ou de comportamento, de cerca de 1 criança a mais em cada 100. Olhando para o resultado mais amplo da pesquisa, chamado de necessidade educacional especial (quando a escola registra que a criança precisa de apoio extra para aprender), a taxa foi de 20 em cada 100 crianças sem exposição à depressão ou ao remédio. Subiu para 23,6 em cada 100 quando a mãe teve depressão não tratada, e para 26,5 em cada 100 quando teve depressão tratada com antidepressivo.
Segundo a pesquisadora Saraid McIlvride, da Universidade de Glasgow, uma das autoras do estudo, a pesquisa não prova que depressão ou uso de antidepressivo na gravidez cause autismo ou TDAH nas crianças.
Os limites do estudo
Os próprios autores apontam limites. Não havia informação sobre o quão grave era a depressão de cada mãe, o que dificulta separar o efeito da doença do efeito do remédio. Também não havia dados sobre uso de álcool ou outras drogas, sobre a saúde mental do pai, nem sobre amamentação. Uma receita registrada não garante que a mãe tomou o remédio durante toda a gravidez, e o grupo que tomou antidepressivo sem diagnóstico de depressão pode incluir casos de ansiedade não registrados, ou pessoas tratadas por enxaqueca ou dor crônica.
Outro ponto, citado por especialistas que não participaram do estudo, é que autismo, TDAH e depressão podem compartilhar fatores genéticos de família, o que também ajudaria a explicar por que filhos de mães com depressão têm mais desses diagnósticos, mesmo sem o remédio. Há também a possibilidade de que mães com histórico de depressão tenham mais contato com serviços de saúde e de apoio, o que aumenta a chance de um problema do filho ser percebido e registrado.
O que isso significa para as famílias
O estudo é sobre um grupo grande de crianças, não sobre uma gravidez específica. Ele não substitui a conversa com o médico ou a médica que acompanha o pré-natal e a saúde mental da mãe.
O resultado ajuda a responder uma dúvida comum: tomar antidepressivo durante a gravidez, quando indicado por um profissional de saúde, não apareceu, nesta pesquisa, associado a mais casos de autismo ou de TDAH nos filhos, quando comparado a mães com depressão sem tratamento medicamentoso.
Se você está grávida ou planeja engravidar e toma ou pensa em tomar antidepressivo, não interrompa nem comece o uso por conta própria. O caminho é conversar com quem acompanha o pré-natal e, se for o caso, com um psiquiatra, para decidir junto o que é mais seguro no seu caso.




