Estudo com 62 mil crianças na Coreia do Sul não vê aumento real do autismo em 12 anos
Pesquisa com crianças sul-coreanas mostra índice de autismo estável por 12 anos; mais diagnóstico, não mais casos, explica alta nos registros.

O que os pesquisadores descobriram
Uma equipe liderada pela médica Young Shin Kim acompanhou 62.081 crianças nascidas na Coreia do Sul entre 1998 e 2010, divididas em 12 grupos conforme o ano de nascimento. A pergunta era simples: o autismo está realmente mais comum, ou o que mudou foi a forma de diagnosticar? O estudo foi publicado na revista científica JAMA Pediatrics em 14 de setembro de 2026.
O resultado: somando todos os casos identificados até os 7 anos de idade em cada grupo, a proporção de crianças autistas ficou estável ao longo dos 12 anos, variando entre 1,9% e 3,2%, sem uma tendência de aumento que fosse estatisticamente significativa. A proporção de crianças com diagnóstico de autismo registrado aos 7 anos também ficou estável, entre 2,0% e 3,4%.
Por que, então, os números de diagnóstico sobem?
O que mudou de um grupo de crianças para outro não foi a quantidade real de autistas, mas sim quantas delas já eram conhecidas por serviços de saúde ou de educação antes mesmo de serem avaliadas pelos pesquisadores. Nos grupos mais recentes, uma parcela maior das crianças autistas já havia sido identificada por escolas ou serviços de saúde antes do estudo chegar até elas. A diferença entre esse grupo já identificado e as crianças encontradas apenas durante o rastreamento da pesquisa foi diminuindo com o tempo — sinal de que a triagem melhorou.
Um achado chamou atenção: as meninas autistas formaram a maior parte das crianças que só foram descobertas durante o rastreamento da própria pesquisa, ou seja, elas tendiam a ficar mais tempo sem diagnóstico e sem atendimento, mesmo tendo necessidades importantes. Sobre o resultado geral, Kim disse à reportagem: "Ficamos impressionados com a estabilidade dos resultados."
Os limites da pesquisa
O próprio estudo tem limites. Ele acompanhou as crianças só até os 7 anos, então não mostra o que acontece com quem recebe o diagnóstico mais tarde, na adolescência ou na vida adulta — um grupo que, segundo uma especialista ouvida pela reportagem e que não participou do estudo, inclui muitas meninas e pessoas que aprendem a disfarçar suas características. O resultado também vem de um único país, a Coreia do Sul, que tem sua própria forma de rastrear e diagnosticar crianças, o que limita a comparação direta com a situação de outros lugares, como o Brasil.
O que isso significa para as famílias
Esse estudo não muda nenhuma lei ou direito no Brasil. Ele ajuda a entender por que o número de diagnósticos de autismo tem subido em várias partes do mundo nas últimas décadas: não é porque estão nascendo mais autistas, e sim porque a identificação está mais ampla e chega a grupos que antes passavam despercebidos, como as meninas.
Se você é mãe, pai, avó, avô ou professor e desconfia que uma criança pode ser autista mas "não parece", porque ela conversa, olha nos olhos ou copia o comportamento dos colegas, vale levar essa observação a um pediatra ou a um profissional de saúde mental infantil. Em meninas, esse disfarce dos sinais é mais comum e pode atrasar um diagnóstico que ajudaria a criança a receber apoio adequado na escola e no dia a dia.
Informação confiável sobre autismo no Brasil pode ser buscada em canais oficiais, como o Ministério da Saúde (gov.br/saude) e as secretarias estaduais e municipais de saúde, que também orientam sobre encaminhamento para avaliação e terapias pelo SUS.




